Luedji Luna e Orquestra Afrosinfônica levam mais de mil pessoas à Estação de Metrô Imbuí


Foi numa quarta-feira, como canta Luedji Luna nos versos da sua mais ilustre composição, que o canto da autora de Banho de Folhas se misturou aos ritmos clássicos e cadenciados da Orquestra Afrosinfônica da Bahia. O encontro da cantora com a orquestra se deu sob o olhar de mais de mil pessoas, que lotaram a Estação de Metrô do Imbuí, na noite desta quarta (25).

Com patrocínio do Instituto CCR e CCR Metrô Bahia, as atrações de peso foram trazidas para dar continuidade ao Concerto Vozes Negras, projeto que já recebeu artistas como Russo Passapusso, Gerônimo Santana e Mariella Santiago, que se apresentaram para os clientes do Sistema Metroviário de Salvador e Lauro de Freitas. O público presente no local nesta quarta-feira foi o maior de todas as edições.

A farmacêutica Clara Passos, 37, ficou sabendo do concerto de última hora. Ela conta que recebeu a notícia pela manhã, já no trabalho. Quando cumpriu sua jornada diária, foi às pressas em casa para buscar a filha Maria Gabriela, que é apaixonada por música. Elas chegaram às 18h e garantiram assento logo na primeira fileira.

“Nós moramos perto e eu gosto muito de trazer ela para lugares que estimulam. Ela não enxerga, mas gosta muito de música. Além disso, eu gosto muito de Luedji e vou ver ela no Festival de Verão, já comprei o ingresso para esse dia. Mas era perto da minha casa hoje, não podia perder”, afirma.

Assim como Clara, a estudante de Direito Marianna Alves, 20, soube que haveria apresentação no metrô perto da sua casa pela manhã, através das redes sociais, e não quis deixar passar a oportunidade. “Eu nem acreditei, porque é muito raro ver show gratuito no metrô, ainda mais de uma atração que eu sempre quis ver, junto à música clássica que, particularmente, tem meu coração. Luedji representa resistência. É muito bom conseguirmos nos enxergar nela e no álbum dela”, celebra.

Por volta de 19h15, a Orquestra Afrosinfônica subiu no palco e deu início ao espetáculo comandado pelo maestro Ubiratan Marques. Dentre as canções entoadas pelos 23 músicos que se apresentaram no piano, percussão, sopros e contrabaixos, destacaram-se sucessos do álbum Orín – A Língua dos Anjos, indicado ao prêmio Grammy Latino 2021.

Após a apresentação, o maestro Ubiratan, destacou que poder começar o ano com essa edição do concerto foi mais que especial. “Hoje é dia 25 de janeiro, dia da Revolta dos Malês. Então, nós nos concentramos no camarim junto com Luedji, falamos da importância desses 600 que ali atrás lutaram para que nós pudéssemos estar aqui hoje. Fazer esse concerto e ver aquele povo lindo, que é o nosso povo baiano, ver que essas pessoas se reconhecem, é uma coisa maravilhosa. Fico muito feliz de estar possibilitando esses encontros, que eu chamo de reencontros”, relata.

Às 19h55, Luedji Luna deu boas-vindas ao público concentrado na estação de metrô e subiu ao palco. Sua presença levou a plateia ao êxtase. Ainda no palco, a cantora agradeceu a recepção e elogiou a iniciativa. “Quando eu morava aqui não tinha nem metrô. Voltar para Salvador vendo ela mais desenvolvida e iniciativas como essa de cultura para o povo, a Orquestra Afrosinfônica, uma produção aqui dessa cidade, uma idealização do [maestro] Ubiratan, merece muito respeito e muitas verbas, porque os artistas dessa cidade precisam ser valorizados para não ter que sair daqui para ter alguma visibilidade”, disse.

Depois de cantar Banho de Folhas, Luedji saiu momentaneamente do palco. Foi quando a Orquestra Afrosinfônica recebeu Junix, guitarrista da banda Baiana System para tocar o instrumental de Fogo, uma das composições do álbum O Futuro Não Demora. Àquela altura, o clima já estava tomado pela celebração da cultura negra e pela sensação de cura.

A professora Clesiane Santos, 32, que veio de casa só para assistir ao concerto, se encantou pelo que viu. “Achei uma iniciativa extremamente interessante. Já tinha visto outro concerto e me assustei, porque não esperava. É a cara de Salvador. Esse período é muito movimentado, é uma cidade muito alegre. É interessante e reforça nossa cultura negra”, vibrou.

Com a Orquestra Afrosinfônica, Luedji e Junix no palco, o concerto terminou por volta de 20h30. Ainda energizada pela apresentação, a cantora baiana prometeu a mesma alegria para o Festival de Verão, que acontece neste final de semana no Parque de Exposições. Na ocasião, Luedji subirá no Palco Cais a convite de Ivete Sangalo. “Nós vamos nos divertir e entregar festa”, resumiu.

Se a animação no Festival for a mesma vista na Estação Imbuí, a cantora acredita que o público “entregará tudo”. Exemplo para muitas meninas e mulheres, sobretudo negras, Luedji pontuou a necessidade de mais incentivo e espaço para mais artistas iguais a si. “O ideal é que nós tenhamos no cenário da cultura da Bahia e do Brasil mulheres e meninas negras que possam se representar. É o que eu desejo”, alega.

Quanto ao Carnaval, a cantora afirmou que não tem planos e estará focada em se preparar para a turnê da versão deluxe do seu álbum Bom Mesmo é Estar Debaixo D’Água. No entanto, adiantou que não recusará convites de artistas baianos para participar da folia. Experimentar o concerto junto com a Orquestra Afrosinfônica já foi uma experiência deliciosa, conforme afirma Luedji. A tendência agora é só pedir por mais.

A série de concertos no metrô é fruto de uma parceria entre a concessionária e a organização social Casa da Ponte, que abriga a Orquestra Afrosinfônica, e tem o comando do maestro Ubiratan Marques. Segundo ele, o público soteropolitano já pode esperar novas edições em breve.

De acordo com a gerente de Comunicação, Ouvidoria e Sustentabilidade da CCR Metrô Bahia, Jocelyn Cárdenas, a parceria com o Vozes Negras reforça o compromisso da CCR Metrô Bahia em promover a cultura e a arte dentro dos seus espaços. “É uma oportunidade única e especial apreciar uma orquestra sinfônica em espaços populares e pretendemos, cada vez mais, aproximar as pessoas de projetos como este”, apontou.

*Com orientação da subeditora Fernanda Varela